
Segundo Rodrigues, "o explícito apoio do presidente Lula - que assim paga a força que lhe deu Sarney no mensalão - configura a união de duas elites. O líder das oligarquias tradicionais do Nordeste junta-se ao líder das novas classes ascendentes". Mas a radiografia de Rodrigues vai ainda mais fundo: "A união foi possível porque os ?novos? aderiram rapidamente ao projeto dos ?velhos?, de fazer da política uma escada para obter proveitos pessoais, enriquecimento e desfrute puro e simples do poder. É algo de fato original. Entre nós, a ascensão dos plebeus não significou a expulsão dos velhos oligarcas. Eles se entenderam, chegamos aonde chegamos."
O presidente Lula, de fato, sempre saiu em defesa das oligarquias que sustentam o seu governo. Em recente visita ao Casaquistão, Lula disse que Sarney "não pode ser tratado como uma pessoa comum" e classificou de "política do denuncismo" a revelação de sucessivos escândalos que sacodem o Senado, como os mais de 600 atos secretos para nomear parentes e aumentar salários, entre outras irregularidades.
"Sempre fico preocupado quando começa no Brasil um processo de denúncias, porque são acusações sem fim... e depois nada acontece. Não li a reportagem sobre o presidente Sarney, mas ele tem história suficiente para que não seja tratado como uma pessoa comum", disse o presidente, minimizando denúncias sobre os atos sigilosos. É o mesmo Lula que, quando estava na oposição, desfilou um rosário de qualificativos impublicáveis sobre o oligarca do Maranhão.
"É importante investigar para ver o que houve", disse o presidente. Para, logo em seguida, num recorrente empenho de relativização da denúncia, questionar: "O que ganharia o Senado com uma contratação secreta, se tem mais de 5 mil funcionários transitando naqueles corredores?"
O presidente da República, invariavelmente, sai em defesa daqueles que compõem o seu cinturão de proteção. Incomoda-o, e muito, o pipocar de denúncias envolvendo membros de sua equipe ou de sua base aliada. Não é de agora o comportamento leniente do presidente. Num primeiro momento, desqualifica a denúncia. Nada se apura. Posteriormente, os denunciados voltam ao abrigo do amplo guarda-chuva protetor do poder.
Há, sem dúvida, uma simbiose impressionante entre a velha oligarquia e a nova elite ascendente. O que está acontecendo, talvez em proporções inimagináveis, é o resultado final de um silogismo com premissas ideológicas bem concretas. O PT, partido do presidente da República, que sempre agitou a bandeira da ética, na verdade cresceu sob a sombra da práxis de inspiração marxista, isto é, o que importa é o poder a qualquer preço. A ética foi uma bandeira de marketing, mas não é o fundamento da ação. Daí a convivência quase amorosa com os inimigos do passado. Daí o vale-tudo em nome de um projeto de permanência no poder. Por isso, hoje eles encarnam o que sempre criticaram. O pragmatismo algemou a consciência.
O projeto de perpetuação no poder, com o terceiro mandato do presidente ou com um clone de Lula, reclama a aquiescência da base aliada. E o preço do apoio está aí escancarado, gritando nas manchetes dos jornais. Loteou-se o governo para obter um passaporte para o aparelhamento do Estado. Posso estar errado, mas vislumbro no horizonte pesadas sombras de autoritarismo populista.
O presidente Lula, inteligente como é, soube manter a economia nos trilhos. Ele tem horror da inflação e para evitar o seu ressurgimento é capaz de todas as ortodoxias. Sua biografia, carregada de sofrimento e desamparo, deu à sua alma intensa sensibilidade social. O presidente fez muito pelos pobres e desvalidos. Reconheço seus méritos e sua sinceridade. Ninguém lhe tira seu imenso crédito na poupança eleitoral. Homem de indiscutível talento para a comunicação popular e de patente gosto pelo exercício do poder, Lula soube montar uma rede de apoio ao seu projeto pessoal, que, na minha opinião, caminha em rota de colisão com a cultura democrática.
A ameaça plebiscitária, marca registrada de Hugo Chávez e de Evo Morales, não está fora de cogitação. Creio, no entanto, no vigor das nossas instituições. O Poder Judiciário, independentemente de seus problemas e dificuldades pontuais, tem sido pautado por fina sensibilidade democrática. A sociedade civil, embora encantada com o razoável desempenho da economia, não está disposta a abrir mão dos benefícios da democracia. E a imprensa livre e independente cumpre o seu papel de investigação e de denúncia.
A democracia é o melhor antídoto contra o veneno da corrupção e do populismo. Como já escrevi neste espaço opinativo, os caminhos democráticos lembram as trilhas de montanha. O excursionista está sempre subindo, até mesmo quando parece que está descendo. A democracia é um lento aprendizado. O eleitor, inicialmente ingênuo e manipulável, vai ganhando discernimento. Não há marketing que sustente indefinidamente a mentira e a impunidade.
Carlos Alberto Di Franco, doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, professor de Ética, é diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br) e da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com)
E-mail: difranco@iics.org.br
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