sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O vírus se espalha

Crise do Senado extravasa a instituição e atinge outros setores do Estado e até o princípio da liberdade de imprensa



Conforme o dia e a ocasião, passam do ridículo ao revoltante, e do grave ao pitoresco, as tentativas que se adotam no Senado para neutralizar os efeitos da crise atualmente em curso.
As irregularidades cometidas ao longo dos últimos tempos compõem, por si mesmas, um prontuário suficientemente carregado, obra coletiva de senadores oriundos dos mais variados agrupamentos partidários. Mas o escândalo não se resume a isso.


A utilização da máquina pública em interesse próprio vai extravasando os muros do Senado para atingir a totalidade das instituições republicanas.
O jornal "O Estado de S. Paulo" noticia o andamento de uma operação da Polícia Federal envolvendo a família Sarney. Mobiliza-se então um desembargador, de notórias relações com o clã -e revive-se, em pleno Estado democrático, a censura à imprensa.


Os interesses sarneyzistas se chocam com as atividades da Receita Federal: eis que a secretária do órgão, Lina Vieira, é demitida. Se é difícil encontrar provas concretas da relação entre os dois acontecimentos, tudo se torna mais plausível a partir das declarações de Lina Vieira quanto às pressões que teria recebido para "agilizar o caso".


Assinale-se que a ministra Dilma Rousseff nega a existência de um encontro sigiloso no qual tivesse enunciado qualquer coisa nesse sentido. É a palavra de uma autoridade, nem sempre em pleno domínio das informações sobre seu próprio currículo, contra a de uma funcionária demitida, sem dúvida disposta a queimar as pontes que a vinculavam ao aparelho petista.


Aparelho por aparelho, vê-se a antiga "República de Alagoas" aliada à oligarquia maranhense e a petistas num estado mental que oscila entre a catatonia e o alopramento. As notas monótonas de uma cantilena tradicional -a da "governabilidade"- entoam-se em nome dos interesses lulistas a favor do respaldo peemedebista à candidatura Dilma Rousseff.


Nesse contexto, o presidente Lula propõe a concessão de uma emissora de rádio ao filho do senador Renan Calheiros (PMDB-AL). É como se as mais diversas áreas de atuação do poder público se colocassem a serviço das oligarquias de sempre, quanto mais estas se veem desmascaradas em seu comportamento.
Vem, por fim, a nota pitoresca. Depois de manifestantes terem invadido o plenário do Senado, aos gritos de "Fora, Sarney", decidiu-se pela proibição das visitas à Casa. O motivo oficial seria evitar a contaminação pela gripe suína.


Mas o vírus presente no Senado é de outro tipo. Atinge tanto governistas quanto a oposição. O apego do senador Arthur Virgílio ao cargo de líder do PSDB é tão intenso, cabe lembrar, quanto o de seu maior adversário.


Cuidados básicos de higiene, hoje tão em voga, são ignorados na política brasileira -e, se há algum inocente em toda a história, trata-se sem dúvida da simpática categoria dos suínos, que leva a culpa pela gripe, enquanto lodaçais de outro tipo se frequentam com grande espalhafato e gosto.




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